Musicista e empresária, Wassi Carneiro (33) nasceu e morou em Araras até os 15 anos. Iniciou seus estudos na Escola Livre de Música de Araras com o violino.

A musicista durante intervalo de um evento em São Paulo
A musicista durante intervalo de um evento em São Paulo

Aprovada no Conservatório de Tatuí, aperfeiçou os estudos musicais por oito anos e hoje já soma 22 de casamento com seu instrumento preferido. “Morava em Tatuí e voltava para Araras aos finais de semana para dar aulas particulares. Mas com minha carreira artística demandando mais tempo em trabalhos, como turnês em shows com artistas da MPB, acabei ficando cada vez mais tempo sem voltar. Hoje consigo retornar de uma a duas vezes no ano para ver meus pais Dario Carneiro e Ivani Dias. Mas mesmo com essa distância, eu sigo amando essa cidade! Às vezes comento em São Paulo que meu sonho é voltar a morar no interior e o pessoal acha meio estranho, porque geralmente o caminho do sonho é ao contrário, ir morar na capital. Eu tenho um carinho imenso por Araras!”, declara.

Wassi conta que integrou várias orquestras sinfônicas e também atuou em grandes shows com nomes consagrados como Zezé di Camargo & Luciano, Bruno & Marrone, Roupa Nova (incluindo a gravação do DVD RoupAcústico 2), Hermeto Pascoal, Leila Pinheiro, Pedro Mariano, Tony Garrido, Claudia Leitte, Péricles, entre tantos outros. Casou-se com o violinista Cuca Moreira que, logo em seguida, ingressou na Orquestra Sinfônica da USP e então passaram a residir na capital paulista. Wassi aprimorou sua técnica na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) e chegou a cursar quatro semestres da faculdade de Musicoterapia, interrompida após um sequestro relâmpago. No semestre seguinte, quando pensava em retornar ao curso, surgiu uma oportunidade para dar aulas de violino num renomado colégio de alta classe de São Paulo. Nele Wassi trabalhou por cinco anos, mas foi demitida logo após voltar da sua licença-maternidade, o que a deixou extremamente abalada e deprimida. “Eu fiquei arrasada… Minha autoestima ficou lá embaixo. Senti-me completamente sem valor”.

No vagão do Centro Cultural de Araras gravando o clipe Trem Bala
No vagão do Centro Cultural de Araras gravando o clipe Trem Bala

Foi então que surgiu a oportunidade de fazer um curso de empreendedorismo feminino em Araras. “Como eu tinha uma empresa de produção musical que ficava até então em segundo plano, decidi fazer o curso. A cada 15 dias eu pegava minha filha Catherine, então com oito meses, e ia sozinha com ela de São Paulo para Araras. Deixava-a com minha mãe, ia para o curso à noite e voltávamos para São Paulo no mesmo dia. Chegava em casa à meia-noite. Foi assim por três meses. No meio desse tempo eu estava muito cansada. Então, num dia de curso pedi uma resposta pra que Deus me dissesse se valia a pena ou não seguir com aquilo, porque eu não aguentava mais. No meio desse tempo eu estava muito cansada de viajar sozinha com ela que chorava muito na ida e eu tinha que parar várias vezes no acostamento para acalmá-la. Então, num dia de curso pedi uma resposta pra que Deus me dissesse se valia a pena ou não seguir com aquilo, porque eu não aguentava mais. Naquele momento haveria um sorteio com três prêmios e rapidamente aproveitei pra pedir a Deus que se fosse pra eu seguir, que eu ganhasse qualquer prêmio. Se eu não ganhasse, eu sairia de lá naquele momento e deixaria a carreira de empresária. A resposta veio: ganhei o melhor prêmio do sorteio! Então pensei: ok, é pra continuar e é pra ser a melhor! Investi todo o FGTS da minha demissão na reformulação da minha empresa, mudei o nome para Quattro Corde, mudei toda a identidade visual, criei site, gravamos um dos nossos grupos – o Bella Quartetto – em estúdio, depois gravamos clipes (inclusive dois aqui em Araras), fiz curso de Negócios do Mercado de Casamento… Foi um grande investimento para ser referência em produção musical e em pouco tempo os frutos desses esforços e dedicação já vieram. Fazemos grandes eventos na capital e interior, de cerimônias de casamento a formaturas de graduação e eventos corporativos com renomadas empresas farmacêuticas”.

Pouco tempo depois da reformulação de sua empresa, surgiu uma nova oportunidade na carreira como musicista, a de se tornar maestrina. “Quase como um acaso tive a oportunidade de fazer um curso de regência orquestral por um ano e meio; fui fazer por curiosidade, não tinha pretensão nenhuma em me tornar maestrina e seguir a profissão, mas aquilo me conquistou de uma maneira tão intensa que resolvi me dedicar profissionalmente a isso”. O processo para essa conquista foi “uma superação mesmo, porque eu tinha tudo contra mim. Mas eu fui lá e fiz. No meio do ano passado decidi com muita ousadia prestar vestibular para regência na Unesp. Digo ousadia porque eu não tinha tanta experiência com a regência e nem com o piano. Então, dois meses e meio antes do vestibular comecei a fazer aulas de piano, de regência, de harmonia e percepção musical; foi uma grande força-tarefa para me preparar para o vestibular. Depois que passei na primeira fase, comecei a me dedicar para a prova dissertativa da segunda fase da maneira que pude, estudava História, Geografia, Gramática, Matemática, Química por canais do YouTube. No início deste mês veio o resultado: fui aprovada em sétimo lugar no vestibular de regência! Foi uma alegria indescritível, pois eu tinha quase certeza que não conseguiria passar. Por esses e outros acontecimentos da minha vida, eu me defino como obstinada. Sempre corro incansavelmente atrás do que almejo”.

A violinista Wassi Carneiro no palco do Centro Cultural de Araras Leny de Oliveira Zurita
A violinista Wassi Carneiro no palco do Centro Cultural de Araras Leny de Oliveira Zurita

A agitada vida empresarial, a paixão pela música clássica e pelo violino são esclarecidas por Wassi. “São duas atividades bem distintas. O escritório da Quattro Corde fica na minha casa em São Paulo, o que facilita o trabalho nos horários mais improváveis, como tarde da noite e madrugada, respondendo emails, fazendo orçamentos e redigindo contratos. Nos outros horários divido entre Visitas Técnicas, reuniões com clientes, ensaios e as apresentações em si. Fora isso existe o tempo que tenho que me dedicar para os estudos pessoais, tanto para o violino, quanto para a regência, porque músico não deixa nunca de estudar, é para o resto da vida, mesmo que para uma manutenção da técnica, porque a gente ‘enferruja’ se ficar algum tempo sem pegar no instrumento. Por isso é importante ter um tempo disponível para isso.

A paixão pela música clássica e a escolha do violino vieram juntas e de uma forma muito inusitada. Um dia, eu devia ter uns oito ou nove anos, estava assistindo jornal com meu pai como de costume e provavelmente devia ser na TV Cultura, pois passou uma matéria de uma orquestra que se apresentaria naquela noite. Eu nunca tinha visto uma orquestra nem um violino até aquele momento e fiquei encantada. Então disse para meu pai que queria tocar aquilo (que era o violino, nem sabia o nome) e ele disse que em Araras não tinha onde aprender violino. Aí fiquei meio chateada, mas superei. Depois de um tempo, minha mãe comentou com uma amiga sobre eu querer tocar violino e essa amiga disse que tinha uma sobrinha que estudava violino na Casa da Cultura. Então me inscrevi na lista de interessados e depois de um tempo me chamaram para uma vaga. Comecei meus estudos com 11 anos de idade e a paixão só foi aumentando”.

Wassi Carneiro no auditório do Centro Cultural de Araras Leny de Oliveira Zurita
Wassi Carneiro no auditório do Centro Cultural de Araras Leny de Oliveira Zurita

Ela conta também sobre sua relação com a cultura dos índios. “Meu pai trabalhou por muitos anos como administrador de uma fazenda do Dr. Hermínio Ometto em Mato Grosso. Essa fazenda ficava muito próxima a uma aldeia Xavante. Na época, décadas de 60/70, poucos índios falavam português, era uma tribo bastante pura nos seus costumes ainda. Meu pai começou a pegar amizade com os índios e aprendeu a língua deles. Quando os filhos começaram a nascer, fomos levando como nomes palavras indígenas. Wamore, que significa “nossa luz/iluminado”; Waire é  “forte/valente”, Wendi, “belo” e Wassi, que significa “estrela”. Na década de 80 meu pai deixou a fazenda no Mato Grosso e voltou para Araras, onde minha mãe e os filhos sempre ficaram, mas ele não perdeu o contato com os amigos índios. Nos anos 2000 os Xavantes vieram até meu pai pedir ajuda num processo sobre a área indígena da qual foram expulsos na década de 70 e meu pai havia presenciado na época. Meu pai não negou esforços e prestou seu depoimento à Justiça e Funai, onde foi dada causa ganha aos Xavantes e então retornaram àquelas terras. Em 2004 meu pai foi condecorado com a medalha do Mérito Indigenista pelo então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, pelos relevantes serviços prestados à causa indígena”.

Wassi comenta sobre a importância do veganismo em sua vida. “Sempre tive admiração pelos vegetarianos, venho de uma religião cristã que preza por uma alimentação saudável, pois entende que o corpo é o templo do Espírito Santo e então devemos cuidar de tudo o que colocamos dentro dele. Mas minha força para conseguir me tornar vegetariana e depois vegana veio pela compaixão pelos animais. Quando me dei conta que hoje, em pleno século XXI, com a oferta de alimentos e tecnologia que temos, ainda precisamos sacrificar e esquartejar animais (chame de abater e dos cortes que desejar) para nos alimentar é tão infundado, que tem mais a ver com tradição do que razão, que todos os nutrientes que precisamos são abundantemente biodisponíveis nos vegetais, e que um porquinho ou um bezerrinho não é diferente de um cachorrinho, decidi abolir os derivados animais da minha vida. E o que aconteceu é que, mais que salvar animais, minha nova dieta salvou minha vida. Eu estava morrendo, estava sendo intoxicada. Estava supergorda, cheia de dores pelo corpo, com espasmos musculares, fadiga extrema. Nenhum médico descobria o que eu tinha. Até meu neurologista de Ribeirão Preto desconfiava de mitocondriopatia, o que é muito grave. Até que eu me tornei vegetariana e, depois, vegetariana estrita, e tudo sumiu. Rapidamente. O sobrepeso, as dores, os espasmos, a fadiga… tudo. Eu digo que eu salvei a vida dos animais e eles salvaram a minha. Existe um lema do veganismo muito bonito que diz “por você, pelos animais e pelo planeta”. Seja vegano por um e irá beneficiar todos os outros.

Com o marido Cuca Moreira em dia de comemoração do primeiro aniversário de Catherine
Com o marido Cuca Moreira em dia de comemoração do primeiro aniversário de Catherine

Sobre planos para o futuro profissional, Wassi quer consolidar a Quattro Corde como referência em produção musical “e tenho muitos planos para minha carreira como maestrina. Nos próximos cinco anos estarei me dedicando na graduação, mas já penso em mestrado fora do país. O objetivo final é ser maestrina titular numa grande orquestra, em algum lugar do mundo”.

Por dentro

Um momento feliz – Quando vi que fui aprovada em Regência na Unesp

Receita de sucesso – Obstinação. Todos os grandes empresários de sucesso quiseram e correram atrás, independente de quantas vezes fracassaram e do quanto demorou, continuaram batalhando por aquilo que queriam até alcançar

Maior frustração – Quando, depois de mais de 24 horas de trabalho de parto, não tive mais forças pra dar à luz, mesmo com toda dilatação necessária. Minha filha nasceu de parto natural, mas com uma pequena intervenção cirúrgica. Não ter tido mais forças pra colocá-la pra fora e senti-la nascendo foi muito frustrante pra mim

O que tira seu sono – Ansiedade tira meu sono, e eu sou uma pessoa muito ansiosa. Então qualquer coisa pode tirar meu sono: uma preocupação, uma alegria, um novo projeto, uma indignação…

O que nunca quis fazer e acabou fazendo – Faculdade de Licenciatura em Música

O pior sentimento – Impotência

A maior satisfação – Conquistar

Uma música – Difícil uma musicista ter que escolher só uma… Fico com as quatro sinfonias de Brahms

Uma palavra mágica – Respeito

Lição que a vida lhe deu – Ninguém vai fazer por você. Vai lá e faça!

Um hábito para se livrar – Procrastinação

Uma lágrima para – Minha vó Lucilla Moreira Barbosa (Ciloca)

Uma qualidade sua – Generosidade

O que mudaria em si mesma – Minha pouca paciência

O que é um bom dia – Um dia sem se deparar com alguma injustiça (difícil, né?)

Uma viagem – Gostaria de poder passar um tempo numa tribo indígena com meu pai Dario Carneiro

Um livro – “O Desejado de Todas as Nações”, de Ellen White

Um filme – Dois: “O Pianista” e “Até o Último Homem”

Deus – O Princípio e o Fim

O que você faz só dentro de casa – Tomar banho no escuro (herança de 28 anos de enxaqueca)

O caminho mais rápido – Nem sempre é um caminho justo

Perfume – Light Blue, Dolce & Gabbana

Saudade – Da minha infância no sítio

Uma extravagância – O aniversário de um ano da minha filha Catherine (risos)

Paparicando a filha Catherine
Paparicando a filha Catherine

Por fora

Um inimigo respeitável – Eu não tenho inimigos. Não gosto de algumas pessoas e sei que algumas não gostam de mim, mas inimigos eu não tenho. Mas olhando por um viés histórico, há inimigos da humanidade que são respeitáveis dada à sua capacidade de convencer milhões de pessoas de que a pior ideia que essa pessoa poderia ter seria a melhor ideia para uma nação. Infelizmente só após alguns anos e centenas de milhares de seres humanos mortos é que se percebe por unanimidade que aquela “excelente” ideia era muito equivocada. Esses inimigos nunca serão respeitáveis, mas a capacidade de convencer uma multidão de que algo errado é certo, é muito respeitável. Vemos isso até hoje

Que balança seu coração – Inteligência e bondade

Insubstituível – Um filho é algo insubstituível

Marcante – A queda das torres gêmeas em 2001

Exemplo – A maestrina mexicana Alondra de la Parra, ela é uma grande maestrina e mãe de dois filhos pequenos. Mulher, maestrina, competente e mãe não é combinação nada fácil…

Mal-humorado – Não suporto gente mal-humorada. Você pode ser sério, mas seriedade não é sinônimo de mau humor. A vida já é dura demais pra ser levada sem a leveza do humor

Mulher inteligente – A que entende o que é e para que serve o feminismo, o que para mim não demandaria muita inteligência, mas às vezes parece se fazer necessário

Homem inteligente – Mario Sergio Cortella, que além de tudo é um homem que entende o que é e para o que serve o feminismo

Sábio – Jesus Cristo

O que você só faz fora de casa – Uso guarda-chuva

A personalidade da cidade – O falecido maestro Francisco Paulo Russo

Capaz de escrever um livro sobre sua vida – Infelizmente ainda ninguém seria capaz de escrever um livro sobre a minha vida

Sabe fazer sua cabeça – Pessoas que tenham argumentos embasados

A companhia perfeita – A que me faça rir

O lugar preferido em Araras – Praça Barão de Araras com pipoca e tudo!

Wassi Carneiro com a filha Catherine em visita a uma família de índios Xavantes do Mato Grosso
Wassi Carneiro com a filha Catherine em visita a uma família de índios Xavantes do Mato Grosso

Sinônimo de

Coragem – Refugiados de todo mundo

Elegância – Ser educado e justo é bastante elegante

Beleza – A atriz e diretora vegana Natalie Portman

Sofisticação – Gosto, mas quando vem acompanhada de educação e cordialidade

Sensibilidade – A violinista americana Hilary Hahn

Dignidade – Quem é digno?

Bom caráter – O jornalista Ricardo Boechat

Liderança – O maestro britânico Sir Simon Rattle, maestro titular da Filarmônica de Berlim

Talento – O violinista australiano Ray Chen

Lealdade – Milk, minha chow chow

Gravando clipe numa fazenda em Cordeirópolis
Gravando clipe numa fazenda em Cordeirópolis

Seu lema de vida

“Tocar o coração das pessoas”

A ararense em frente ao Museu do Ipiranga em São Paulo
A ararense em frente ao Museu do Ipiranga em São Paulo

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