Elas que nem pensavam em se ver novamente, agora fazem planos para um futuro melhor. E juntas. Mãe e filha se reencontraram no último sábado (14), em Araras, após ficarem 23 anos separadas. Faltaram palavras no momento, sobrou emoção.

Moradora de rua, Rita de Cássia dos Santos, 45, praticamente não existia para a filha Flávia Rafaela Alcântara, 27. O pai, que

Rita de Cássia dos Santos abraça a filha Flávia, no último sábado (14)
Rita de Cássia dos Santos abraça a filha Flávia, no último sábado (14)

tirou a menina da mãe ainda pequena, sempre disse que Rita estava morta e ela cresceu acreditando nisso. “O que ele fez não foi certo, mas eu o perdoo. E perdoo você também, mãe. Não tenho mágoas da senhora e nem do meu pai”, disse Flávia, emocionada, durante o reencontro.

Ela mora em Quintana/SP, na divisa com o Paraná, e pretende recuperar o tempo que ficou longe da mãe. “Quero fazer um cantinho para ela na minha casa e levá-la pra morar comigo, se ela quiser”, adiantou. Flávia, a filha mais velha de Rita, foi localizada nas redes sociais por meio de voluntários da ONG Associação Separados para o Senhor, que faz trabalho junto a moradores de rua em Araras.

Rita está acolhida há dois meses no Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua de Araras Dr. Narciso Gomes, mais conhecido como Centro Pop, com o companheiro Demerval. Lá, eles passam a noite e ajudam na limpeza do espaço. A equipe do Centro Pop acompanha a história dos dois desde 2012. “A ONG trabalha junto conosco na abordagem social nas ruas e também para reforçar o fortalecimento de vínculos com esta população”, diz o psicólogo Jefferson Libanori, coordenador do local.

Órfã de pai e mãe, Rita nasceu em Catanduva/SP e chegou a Araras em 2002. Há cinco anos, ela foi acolhida por Demerval, 42, mas, depois de algum tempo morando juntos, em uma casa na zona leste, ele foi demitido do emprego e os dois foram morar na rua. Atualmente, o casal sobrevive com a renda obtida da venda de materiais recicláveis encontrados no lixo. Em meses considerados bons, eles conseguem juntar cerca de R$ 250.

 

Luta e sofrimento

A vida de Rita é marcada por muita luta e sofrimento. Aos 14 anos, ela começou a trabalhar e, segundo relata, era tratada como escrava pela patroa. Neste tempo, conheceu um homem e, depois de um ano de relacionamento, engravidou. Nascia, então, a primogênita Flávia – anos depois, vieram ainda Rafael e, por último, Ana Flávia, frutos de outros relacionamentos.

Além de abandonar Rita, o pai de Flávia também conseguiu a guarda da menina, que foi separada da mãe quando tinha 4 anos e criada pelos avós paternos.

Com os outros dois filhos, Rita tentava sobreviver nas ruas, passando fome, muitas vezes, e dormindo até em cemitérios para protegê-los. A família, no entanto, não permaneceu unida por muito tempo. Rafael, o filho do meio, foi adotado quando tinha 2 anos e Ana Flávia também foi entregue a duas mulheres, que pediram para cuidar da menina.

Sozinha, Rita encontrou nas drogas seu refúgio e, vivendo nas ruas, foi passando por várias cidades até chegar a Araras.

“Sempre tive esse vazio no coração e essa saudade dos meus filhos. Queria muito encontrá-los, mas não tenho dinheiro e nem tinha como procurá-los. No fundo, imaginava que um dia isso iria acontecer, mas parecia cada vez mais distante”, comentou Rita.

 

Novo recomeço

Recuperada dos vícios, Rita tenta reconstruir a vida ao lado de Demerval e restabelecer o contato com os filhos, perdido há décadas. “Ainda vamos conseguir localizar os outros dois. Estamos lutando para isso”, revela Vanessa Trevisan, presidente da ONG e também integrante da Igreja Mananciais das Águas, que também realiza trabalho de acolhimento junto aos moradores de rua na cidade.

Foi ela quem conseguiu localizar Flávia e possibilitar o primeiro contato das duas, ainda por telefone. “Quando disseram que a minha mãe queria falar comigo, achei que fosse brincadeira. Não tinha mãe. Pra mim, ela estava morta”, conta Flávia. Na

Demerval, Rita e Flávia planejam reconstruir a vida juntos
Demerval, Rita e Flávia planejam reconstruir a vida juntos

primeira ligação telefônica entre as duas, Rita começou a contar detalhes da infância da filha e fez com que ela recordasse memórias até então esquecidas. “Ela falou da nossa casa que ficava perto da linha do trem e das bonecas que eu tinha. Nenhuma outra pessoa saberia destas histórias. Nesta hora, soube que ela era minha mãe mesmo”, conta.

Flávia tem um filho de nove anos e, assim como a mãe, já passou por dificuldades também. “Fui mãe solteira e morava de favor. Só não passei fome porque pedia comida na casa dos outros. Bebia, usava drogas e só tomei jeito quando o Conselho Tutelar ameaçou tirar meu filho de mim. Parei com tudo depois disso e comecei a me dedicar a ele. Conheci meu marido depois e recomecei minha vida”, revela.

Flávia veio para Araras reencontrar a mãe biológica sem avisar o pai. “Ele jamais aceitaria isso. Meu filho foi criado sabendo quem era o pai, por mais que a gente não vivesse junto. Por isso, não acho certo o que meu pai fez comigo”, completou.

Ela e a mãe ficaram hospedadas no Hotel Marques, que cedeu as acomodações para que as duas pudessem ter um convívio mais intenso. Ontem (16), Flávia foi conhecer o Centro Pop e os amigos da mãe que também estão acolhidos no local. Ela deve voltar para Quintana hoje (17), com o coração renovado e a certeza que a mãe não deixou de amá-la todo esse tempo, apesar das dificuldades da vida.

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