Cinthya Nunes é jornalista, advogada e professora universitária
Cinthya Nunes é jornalista, advogada e professora universitária

Quando li pela primeira vez, ainda criança, como eram, há séculos, as ruas de cidades que hoje são modernas metrópoles, eu fiquei chocada. Como as pessoas poderiam jogar excrementos na rua? Por qual razão as pessoas eram incapazes de perceber que viviam em meio ao lixo, expostas a todo tipo de doenças? Hoje, para minha tristeza, percebo que eu vivia no tempo da feliz ignorância sobre o mundo, sobre o quanto o ser humano pode ser extraordinário e paradoxalmente cretino.

Quando caminho pelas ruas, tanto de cidades pequenas, como em uma gigante São Paulo, noto que não estamos assim tão longe de tempos medievais. Se é verdade que não andamos propriamente entre fezes pela rua (não em todos os lugares, pelo menos), alguns lugares como praças e outros logradouros públicos cheiram tanto a urina que afastam qualquer observador.

Além do mais, a quantidade de lixo que se pode encontrar pelas ruas em uma simples volta por um quarteirão qualquer é assustadora. Eu simplesmente não consigo conceber a razão pela qual alguém não pode levar seu lixo até uma lixeira mais próxima ou, na ausência de uma, dentro de suas bolsas ou sacolas. As coisas que as pessoas deixam pelas calçadas são de todas as cores, formas e tamanhos, mas, sem dúvida, a campeã é a maldita bituca de cigarro.

Se eu fosse uma inventora de coisas reais e não alguém que sonha com o que não existe, eu criaria um cigarro que não fizesse mal a ninguém, pois acho uma tristeza que, nos dias de hoje, com toda informação disponível, as pessoas se injetem fumaça cancerígena. Mas, se isso não fosse possível, preservado o livre arbítrio de quem quer fazer de sua saúde o que bem quer, eu ao menos criaria um cigarro que em uma das pontas tivesse uma semente. Assim, de tanto que são jogadas por todos os lados, as bitucas seriam bem-vindas, tornando verdes os lugares por onde fossem se acumulando.

A vida, entretanto, é mais complexa do que devaneios de quem sonha com um mundo menos poluído, no qual o meio ambiente não se transformasse em um depósito do lixo humano. E digo isso em sentido real e no figurado. Em verdade somos a praga do planeta terra. Vamos destruindo tudo e rezando para que as consequências não nos atinjam, como um tolo que faz uma fogueira estando ensopado de álcool.

Descobri, dia desses, olhando pela internet, que uma moçada do bem, aqui no litoral paulista, consciente, criou um projeto chamado Ecofaxina (https://www.institutoecofaxina.org.br) e, reunidos, saem catando lixo de manguezais e praias. O montante que recolhem é assustador. Sei que há outras iniciativas iguais no Brasil mesmo e pelo mundo afora, mas é deprimente saber que envidam esforços para combater o que outros seres humanos, que desfrutam dos mesmos lugares, dão causa.

Parece-me muito razoável e óbvio que se cada qual cuidasse de não jogar lixo pelas praias, pelas ruas, pelas matas, muitos animais não perderiam suas vidas pelo plástico que infesta o mundo. Muitas enchentes não levariam vidas e casas. Outro sem número de enfermidades seriam evitadas. Não é tão complicado assim. Basta ter um pingo de educação, valor que, em época de tanta informação, parece estar fora de moda…

Cinthya Nunes – Aventuras em família

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