Dr. Enio Vitali é médico e colaborador do Opinião

Há 65 anos exerço a profissão de médico no campo da cirurgia e clínica geral. Com a idade chegaram as limitações físicas e por isto me aposentei como cirurgião e limitei-me a trabalhar apenas como clínico geral.

Não é preciso enfatizar o quanto de doenças passaram pelas minhas mãos durante todos estes decênios de trabalho ininterrupto. Além das doenças congênitas ou adquiridas, nas quais os pacientes não passam de vítimas do infortúnio, há um número assustador de moléstias causadas por abusos ou incúria.

Incúria é quando se deixa de fazer as prevenções. As vítimas mais frequentes são os “machões” que se julgam imunes a doenças e não precisam de médicos. Quando procuram socorro, a moléstia já está num estado avançado, com poucas chances de cura. No item abuso temos três situações que lotam os consultórios médicos: tabagismo, sedentarismo e alcoolismo.

O tabagismo é, sem dúvida, o abuso mais disseminado e é também o que provoca mais danos à saúde. É inacreditável que uma pessoa consciente gaste dinheiro para inalar um produto que a longo prazo só traz malefícios ao organismo humano.

Se fôssemos descrever todas as substâncias tóxicas contidas no cigarro e os danos que elas provocam seriam necessárias várias páginas do jornal. Vamos nos ater apenas aos principais itens.

A lesão mais frequente causada pelo cigarro é a laringotraqueobronquite, ou seja, uma irritação de toda a árvore respiratória, que provoca pigarro e tosse, principalmente na parte da manhã, ao despertar do sono. Por vezes há chiados no peito. Com o passar dos anos essa inflamação pode levar ao enfizema, com dificuldade para respirar e cansaço fácil. Não há cura para o enfizema e se o paciente continuar a fumar certamente vai ter de carregar um torpedo de oxigênio para poder viver.

O cigarro também traz esofagite, gastrite e até úlcera no estômago.

É notória a relação de cigarro com doenças cardiocirculatórias, como arritmias cardíacas, infarte do miocárdio, derrames cerebrais (AVC) e dificuldade na circulação arterial dos membros inferiores.

Mas o pior de todos os males é o câncer de pulmão, doença intimamente ligada ao vício de fumar. Mais de 80% dos cânceres de pulmão são devidos ao cigarro. É doença de alta letalidade e de difícil cura.

Diante de tantas desgraças provocadas pelo cigarro fica a pergunta: – “Por que se combate tanto o uso da maconha e se deixa o cigarro ser consumido livremente?”.

É uma hipocrisia socioeconômica que nos leva a lembrar a frase do tribuno romano Marcus Tullius Cicero: “O tempora, o mores. Quosque tandem?”.

Os outros demolidores da saúde, sedentarismo e alcoolismo, serão analisados num próximo capítulo.

 

Mais notícias

COMPARTILHAR