Enfim aconteceu!
É certamente inesperado e jamais imaginado por mim, mas cá estou a escrever sobre algo na programação da Rede Globo de Televisão e mais surpreendente ainda é que faço isso elogiando e recomendando tal produção!
Mas calma… Continuo alheio a cerca de 90% da programação das emissoras de TV abertas por achar que só consistem em mero entretenimento sem qualidade, onde os assuntos abordados em geral são irrelevantes (às vezes até medíocres), assim como a forma e a profundidade pelas quais são trazidos são rasas na sua maior parte.
Para ter uma ideia, fui a três ou quatro edições do SPFW – São Paulo Fashion Week e lá sempre me senti um “peixe fora d’água”, mas em algumas dessas idas a Dani (minha namorada) foi comigo e vibrava por estar rodeada de tantas “celebridades” da TV, porém eu não tinha a menor ideia de quem estava por ali. Anyway…
Voltemos à minissérie que apresenta a biografia da carreira de Elis Regina e que recebe o título de “Elis – Viver é Melhor do que Sonhar”. Ela foi escrita por George Moura, dirigida por Hugo Prata e é derivada de um longa-metragem produzido pela Globo Filmes em conjunto com a Bravura Cinematográfica e Academia de Filmes.
A construção do roteiro mistura dramaturgia com material documental, onde artistas, produtores, empresários e jornalistas contemporâneos da cantora aparecem falando sobre ela. Eu gosto muito dessas inserções de cenas porque elas trazem as impressões das pessoas que realmente conheceram e conviveram com Elis, de forma que (ao meu ver) são mais autênticas e confiáveis do que informações colhidas em pesquisas.
Outro destaque dessa minissérie é a atuação da atriz Andréia Horta, que interpreta Elis e, apesar de não ter uma fisionomia tão assemelhada à da cantora, incorpora muito bem seus traços psicológicos e reaviva cenas não documentadas na época, mas que representam grande importância na vida da artista.
Andréia também dubla muito bem as gravações de Elis e faz toda uma gesticulação facial, bucal e corporal que dá a impressão de que é ela quem está cantando, mas, no entanto, foi usada a voz original da cantora nessas cenas.
A atriz disse o seguinte sobre interpretar Elis Regina: “Quando soube que interpretaria Elis, três anos após tê-la feito no cinema, achei uma loucura da vida. Revisitar alguém como ela é sempre um prazer raro. Foi lindo colocar meu corpo, minha voz e meu pensamento a serviço dela”. (Fonte: Observatório da Televisão).

Quero ressaltar o aspecto didático que a minissérie possui, porque ela vai explicando algumas situações vividas pela cantora e deixando claro o panorama social, político, econômico, artístico e cultural da época. Um exemplo é quando Elis Regina chega ao Rio de Janeiro, bem no início da carreira, vai a um show de Nara Leão, a vê cantando bossa-nova e há uma explicação sobre esse estilo musical. Vale salientar que Elis tinha como uma de suas maiores competências musicais a potência vocal, o que diferia muito da suavidade da bossa-nova, de forma que é basicamente através da chegada dela que é cunhado o termo MPB.
Além dessas qualidades todas que apresentei até aqui, destaco o valor poético e filosófico que está no próprio nome da minissérie “viver é melhor que sonhar”. Porque é comumente entendido que os artistas vivem no mundo dos sonhos e não no mundo da realidade. Passa pela cabeça de muitas pessoas que os artistas não são pessoas práticas e que se perdem na diversidade de suas ideias e realmente tem uma porção de pessoas que são desse jeito, assim como tem outra porção de pessoas que são diferentes disso e Elis Regina ajuda a quebrar esse tabu pela quantidade de produções que realizou e por sua qualidade artística evidente em deixar de ser prática!
Mas essa mesma frase expressa uma coisa muito forte que está contida em praticamente toda a obra de Elis. Que é a vontade de ser feliz nesse mundo dos acontecimentos e não apenas no estado de espírito. Então, por isso faço uma grande reverência a ela e concordo que “viver é melhor que sonhar”!
Por fim, acrescento a importância de se resgatar pessoas tão importantes para o Brasil. Protagonistas da nossa história e que elevam o patamar brasileiro de alguma área (esporte, política, ciência, artes…). Acho que o Brasil tem memória curta quanto a si mesmo e esse tipo de produção ajuda a combater esse “Alzheimer” nacional e nacionalista que temos!
Que todos tenham um ótimo, divertido, revigorante e muito musical final de semana, desta vez ao som de Elis Regina, porque viver é melhor que sonhar!

Nando Pires é músico, compositor e escreve aos sábados no Opinião