Xico Graziano é engenheiro agrônomo e doutor em administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV e sócio-diretor da e-PoliticsGraziano. O articulista escreve para o Poder360 semanalmente, às quartas-feiras

Perto da tragédia humana, o dano ambiental do desastre de Brumadinho é pequeno. Por isso divirjo dos ambientalistas catastróficos.

Trata-se de uma postura relativamente comum dos defensores radicais da biodiversidade: nestes momentos trágicos, eles dão mais importância ao prejuízo nas plantas, nos animais, na qualidade da água, que a perda das pessoas.

É notório que ocorreu grave dano ambiental, causado pelo derramamento de lama, possivelmente contaminada por metais pesados, naquelas várzeas. Mananciais perderam qualidade. Nascentes d’água foram atingidas. Toda a sociedade pagará por esse crime ambiental.

De forma surpreendente, porém, a natureza aos poucos se recuperará. Este é um ensinamento histórico retirado de graves acidentes ecológicos: quando você imagina que tudo está irremediavelmente perdido, a vida silvestre e os serviços ecossistêmicos ressurgem como num milagre.

A impressionante capacidade de recuperação natural se observa em acidentes no mar, causados por derramamento de óleo de navios petroleiros. Imagens de praias enegrecidas, pássaros e animais mortos chocam o mundo. Passado um tempo, cadeias tróficas se refazem, ressurge a beleza azulada.

Grandes incêndios florestais também provocam chocantes cenas parecendo estar aniquilada a vida vegetal e animal. Basta chover, porém, que em poucos anos a biodiversidade se recompõe de forma inacreditável. Tudo se enverdeja novamente. O fogo faz parte da evolução planetária.

O rompimento da barragem de Mariana, contendo material de elevada toxicidade, causou bem maior prejuízo ambiental no rio Doce. Mesmo assim, contrariando os catastrofistas, o mundo não acabou.

Em Brumadinho é diferente. Centenas de pessoas enterradas vivas naquela lama transmitem uma dor imensa, jamais suplantada por qualquer questão ambiental. Mesmo assim, por incrível que pareça, vimos “ecologistas” mais preocupados em salvar animais que chorar a agonia humana.

O grande problema de Brumadinho não pertence ao meio ambiente, mas à Vale e sua engenharia de mineração, responsável pelo assassinato em massa. Como podem ter construído um refeitório, salas de administração, ali embaixo daquela barragem? Como não perceberam o risco do rompimento? Quem permitiu funcionar aquela droga de barragem?

Entristece a alma pensar nas famílias que perderam seus parentes e amigos. Horroriza saber que a impunidade ronda, pois até hoje ninguém, responsável pela tragédia de Mariana, acabou punido.

Precisamos lutar, mais que nunca agora, para que esse bárbaro crime humano, com decorrências ambientais, seja esclarecido e penalizado. Prisões já começaram. Esse é o caminho.

Extrapola quem tenta faturar, politicamente, sobre a tragédia de Brumadinho. As vítimas fatais exigem silêncio, compostura, não disputa ideológica.

 

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