Nando Pires é músico, compositor e escreve aos sábados no Opinião
Nando Pires é músico, compositor e escreve aos sábados no Opinião www. nandopires.com.br

Antes de adentrar ao texto, friso que toda a história da fusão multirracial, social e cultural que resultaram na formação do samba (como estilo musical) é notadamente honrosa, friso que há belíssimas canções nesse gênero, onde se encontram poesias, melodias e harmonias fantásticas, além do já reconhecido e mundialmente adorado ritmo marcante. Ainda para que não haja dúvida, saliento que o título desse artigo faz menção à forma como o samba foi usado no carnaval de 2019 e não a tudo o que esse segmento musical representa. Não preciso desenhar, né?!

O fato é que muitas escolas de samba cariocas não fizeram apenas sátiras ou críticas, o que sempre houve nos carnavais e que quando realizadas de forma inteligente e com propriedade simplesmente é maravilhoso de assistir! No entanto, algumas dessas agremiações carnavalescas foram muito além e abordaram seus temas como verdadeiras provocações, o que não é de bom gosto e nem de bom agouro, dadas as exaltações políticas e sociais que vivemos.

Nos desfiles das escolas de samba de São Paulo os temas foram mais amenos, diversificados e as abordagens também seguiram uma linha mais artística e menos politizada, mas a Gaviões da Fiel rompeu com essa tranquilidade quando colocou um personagem simbolizando o diabo, matando outro personagem fantasiado de Jesus Cristo.

Criticar as igrejas é uma coisa, mas ultrajar frontalmente o Deus de todas as matizes religiosas cristãs é bem diferente! Algo parecido ocorreu sucessivamente na França até que culminou no massacre de grande parte dos colaboradores do jornal Charlie Hebdo. O motivo foi justamente afrontar de forma pejorativa o principal profeta adorado no Islã, Mohamed (Maomé). Sim, o Brasil é um país pacífico… Opah!!! Mas não é aqui que 62 mil pessoas são assassinadas por ano?! Pacífico uma ova, não é mesmo?! Então, acho que dimensionar bem essas manifestações “artísticas” é muito importante, porque não queremos (de jeito nenhum) fomentar mais violência e a história mostra que episódios assim acontecem!

No Rio de Janeiro o tom político teve muito mais destaque e prevaleceu nos desfiles do carnaval deste ano. A escola Paraíso do Tuiuti fez uma ala com pessoas fantasiadas de coxinha que empunhavam revólveres e ao lado desses foliões estavam outras participantes fantasiadas com estrelas vermelhas e com grandes luvas de punhos cerrados, simbolizando a resistência ao presidente eleito. Penso que se fosse um crítica legítima, essas fantasias de estrelas deveriam ser trocadas por sanduíches de mortadela e, ao invés dos punhos cerrados, deveriam haver facas para simbolizar o atentado que Bolsonaro sofreu durante a campanha. Uma curiosidade sobre esse desfile é que ele está amplamente noticiado e divulgado no site oficial do PT, o que denota seu uso político.

Não vou me estender para além desses dois casos, porque são inúmeros; mas ainda tratando dos desfiles das escolas de samba, creio que as avenidas não sejam palanques e que os showmícios foram proibidos há muito tempo para que não houvesse abuso do poder econômico nas campanhas eleitorais, de forma que não vejo com bons olhos o uso de forma partidária de uma festa popular que pertence a 200 milhões de brasileiros e que projeta a imagem do Brasil para todos os cantos do mundo por ser amplamente coberta pela imprensa e transmitida ao vivo por quase todos os veículos de comunicação.

Ainda sobre esse carnaval, o presidente da República deu palanque nacional e internacional para duas pessoas que praticavam obscenidades em cima da marquise de um prédio. Acho que esse tipo de atitude não cabe à presidência da República e penso que ações oficiais, através de atitudes cabíveis junto aos órgãos competentes para cada caso, seriam abordagens melhores do que fazer um simples post no Twitter e gerar tamanha polêmica. Contudo, ele acabou por provocar uma contradição enorme dentro da própria esquerda, visto que ela repudiou profundamente a exposição da pornografia ao passo que ela mesma sempre apregoou o direito desse tipo de prática. Vai entender…

Vê-se nitidamente que a maior parte da classe artística tem um DNA esquerdista e não está sintonizada com a maior parte da população do País, que votou para destituir o império vermelho que se instalou no Brasil e sinto que o oportunismo que transforma qualquer palco e espaço em palanques não seja saudável para que tempos de paz e prosperidade venham a impulsionar o Brasil. Uma pena…

E como terminou o carnaval: “FELIZ ANO NOVO”!!! De novo.

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