Oto Murer Kull Montagner É professor do Núcleo de Negócios do Centro Universitário Hermínio Ometto (FHO) e mestre em economia

Geralmente pensamos em itens importantes para a nossa sobrevivência, já que, na ilha, não teremos supermercados, restaurantes, casa, transporte, celular, etc. Ou seja, teríamos que levar todo o necessário, pois não teríamos onde consumir.

Imagine agora que, em um dia qualquer, mais algumas pessoas chegam à ilha. Feliz por não estar mais sozinho (a), você acolhe os novos moradores muito bem, mas se torna o líder, já que é o que está há mais tempo no local. Entretanto, o grupo continua isolado do restante do mundo. É natural, então, que você e seus novos amigos comecem a produzir tudo o que é necessário para a sobrevivência.

É exatamente assim que funciona uma economia fechada. Ao não estabelecer relações comerciais com terceiros, o país de economia fechada busca a autossuficiência em relação à produção de bens considerados essenciais para o bem-estar da população.

Imagine que no seu grupo há um pescador profissional, mas que não possui experiência no local, nem todos os aparatos adequados. Naturalmente, ele se torna o responsável por essa atividade para ajudar a alimentar a população. Já preocupado por não estar conseguindo pescar o suficiente para alimentar todas as pessoas da ilha em um dia de trabalho, o pescador visualiza uma ilha vizinha e resolve estabelecer contato com os moradores locais. Ele retorna empolgado, contando para o seu grupo que os vizinhos são excelentes na pescaria, principalmente por conhecerem muito bem a região. Isso se torna motivo de festa e vocês resolvem trocar algumas bananas (em abundância em toda a ilha) pelos peixes excedentes dos vizinhos. Embora tudo pareça positivo, o pescador passa a ficar sem atividade produtiva, tornando-se apenas um peso para o restante do grupo, já que ele consome os recursos (comida, vestuário, etc.) e não contribui em nada mais.

O pescador o procura e externa que vem sofrendo discriminação dos outros membros do grupo, pois, quando ele quer opinar sobre algum assunto ou quer ficar com o melhor pedaço de carne, as outras pessoas dizem que ele não tem direito, já que não está ajudando em nada. Sensibilizado por isso e considerando todo o esforço já feito por ele, quando tinha que pescar sozinho, sem conhecer o local e sem os instrumentos corretos, você decide suspender o acordo de trocas com a ilha vizinha. O pescador volta a ser o responsável, com o compromisso de aumentar sua capacidade de produção.

Vemos aí, então, uma política protecionista funcionando. Protecionismo é definido como restrição e/ou distorção do fluxo comercial causado pelo governo, buscando proteger as indústrias domésticas. Isso pode ser feito via taxação do produto importado, subsídio à produção local ou até proibição de importações.

Algumas semanas após essa decisão, você nota que o pescador melhorou e sua produção é o suficiente para garantir a alimentação de todos, mas não conseguiu atingir o nível de produção do vizinho, principalmente em relação à variedade de peixes pescados. Nesse cenário, outros moradores começam a questionar fortemente sua decisão de romper relações comerciais com os pescadores mais eficientes. O argumento dos críticos é o de que você deveria privilegiar o aumento da quantidade e qualidade de alimentos em sua ilha, mesmo que “sacrifique” um dos membros. Para isso, você deveria optar por retirar qualquer barreira ao comércio com outras ilhas.

Os argumentos favoráveis à retirada das barreiras comerciais podem ser classificados como partes da doutrina do neoliberalismo. O neoliberalismo defende que o bem-estar humano é maximizado, quando há liberdades empreendedoras, através de direitos de propriedades definidos, livres mercados e comércio. Sendo assim, políticas protecionistas vão de encontro ao pensamento neoliberal.

Você, então, decide voltar a estabelecer negociações com a ilha vizinha, revogando qualquer regra imposta. Após alguns meses do comércio de bananas por peixes, a ilha vizinha sente confiança em sua capacidade de cumprir o acordo comercial e apresenta sua ilha para outras civilizações próximas, que você não tinha conhecimento até então. O isolamento diminui consideravelmente. Interessados pela sua produção de bananas, os líderes dos demais grupos buscam contato e oferecem vestuário, outros tipos de alimentos e até alguns outros bens manufaturados em troca das bananas. Como você sabia que a maioria de seus companheiros de ilha era a favor de políticas de livre comércio, nem considera necessário consultá-los e estabelece relações comerciais com os interessados.

Podemos definir globalização econômica como o processo de integração na economia mundial, aumentando o fluxo de informação entre os países. Nesse sentido, o comércio internacional se intensifica e há abertura financeira. Então, quando a ilha passa a ter contato e estabelecer contato com diversas outras civilizações, um processo similar ao da globalização econômica é retratado.

A partir dessa decisão, a ilha começa a ser abastecida com todos os itens necessários à sobrevivência humana, incluindo alguns supérfluos e com alta qualidade. Como para conseguir tudo isso era apenas necessário colher bananas, essa se torna a única atividade produtiva necessária na ilha, e todos os outros membros responsáveis pelas outras atividades, antes favoráveis às políticas neoliberais, ficam na mesma situação que o pescador. Marginalizados, esses companheiros de ilha, grande maioria, se unem e revogam seu direito de liderança, substituindo-o por outra pessoa que promete torná-los importantes novamente. Irônico, pois você apenas foi coerente em defender os argumentos daquela maioria e, mesmo assim, ela se revoltou contra suas decisões.

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