Plínio Montagner é pedagogo, professor aposentado e colaborador do Opinião Jornal
Plínio Montagner é pedagogo, professor aposentado e colaborador do Opinião Jornal

Os pessimistas dizem que o bom de ser idoso é não ter morrido antes, ou seja, quem teve sorte envelheceu. O ideal mesmo seria ficar velho sem as marcas do tempo. Não é novidade, os idosos pensam e desejam tudo igual a quando eram jovens.

Não tem jeito, o tempo é inexorável, no fim da juventude o corpo começa perder a mobilidade e, o pior, seu patrimônio mais caro, a beleza, e em troca ganha doenças e dores que aparecem de repente e do nada.

Mas o projeto do corpo humano o protege, a mente se torna mais esperta, precavida e freia os ímpetos da coragem perigosa própria da mocidade.

O que os velhos querem mesmo é que suas dificuldades sejam respeitadas – e toleradas – e não sejam uma vassoura num canto, que não fala, não é ouvida nem notada, salvo quando necessária.

Com o tempo, apesar de o cérebro ficar mais lento e esquecido, há o lado bom: as prioridades e a perfeição não têm mais tanta importância.

Todos os dias os velhos são menos, menos em tudo. Mas há de ser perguntado se as novas gerações deixarão às outras o que a atual deixou. As de hoje construíram o mundo, foram a geração de ouro, que ouvia os mais velhos e tinham um lugar de destaque à mesa.

As conquistas dos idosos nas últimas décadas foram impostas pela sociedade, não espontaneamente pelas pessoas. Foi necessário que a sociedade se manifestasse.

Há uma óbvia diferença entre o idoso pobre e o idoso rico. O rico continuará a ser notado, à sua volta sempre haverá amigos e parentes para conversar e cuidar dele. O idoso pobre se torna apenas um estorvo, um inútil que só dá prejuízo.

O preço da velhice é alto, um dilúvio de problemas e ainda essa humilhação subliminar e manifesta da sociedade: piadas, desqualificação de seu valor, esquecimento do que conquistou, o trabalho duro, o mérito e as honrarias que recebeu.

Resumindo, a maioria das pessoas em idade avançada precisa de muita sabedoria para manter um mínimo de ânimo para viver.

A alternativa de não envelhecer é horrível e ninguém voltou para dizer se a vida eterna é melhor. Por aqui, na Terra, a vida longa é cara. Quem não tem um bom plano de saúde vai embora cedo. Com a idade, um tsunami ataca nosso corpo, a pele, as juntas, a perda gradativa dos sentidos.

Existem umas tiradas engraçadas do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro sobre a velhice.

Uma delas é a crítica que faz aos eufemismos inventados e empregados para substituir as palavras pejorativas – velhice e velho. Não pegou bem substituí-las por “Melhor Idade”, “Idade da Reflexão”, “Terceira Idade”, “Boa Idade” e outras. Melhor nada.

Ubaldo comentava dificuldade dos velhos: “Calçar meias e um laço no sapato deveriam ser novas modalidades olímpicas”. O escritor Jorge Amado, seu amigo e confidente, assegurava com firmeza e humor: “A melhor idade não existe, se existe, nunca fui apresentado a ela”.

Em verdade os favorecimentos destinados à Terceira Idade não são oferecidos individualmente, eles são comuns e coletivos, atingindo o todo, o conjunto das pessoas.

Enfim, aprende-se com o passar do tempo que é impossível viver só na leveza do ser.

“Quanto mais pesado o fardo, mais próximo da terra está nossa vida, mais real e verdadeira”. “Nem mesmo nossa própria dor é tão pesada como a dor sentida com outro, pelo outro, no lugar do outro e multiplicada pela imaginação”.

(A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera).

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